A crise que vive o estado do Rio de Janeiro guarda elementos estruturais de enorme gravidade. O maior deles é que nos últimos 40 anos os governos deixaram de lado políticas públicas embasadas em um mínimo de planejamento estratégico para focar quase que exclusivamente nas ações de curto prazo. E para piorar o quadro, nos últimos 4 anos vimos 6 governadores presos ou afastados do mandato.

Portanto, é importante que cidadãos fluminenses olhem com atenção para as eleições de 2022 quando poderemos escolher quem será responsável pela gestão estadual no período 2023-2026.

Como mostram diferentes pesquisas, a maioria da população ainda não está interessada no assunto, mas isso não diminui sua relevância nem inibe as inciativas de lideranças e partidos que já se movimentam realizando entendimentos preliminares com vistas a futuras alianças.

Em um cenário onde muitos dos nomes tradicionais passam por desgaste ou impedimentos legais há uma chance real da disputa vir a ser protagonizada por personagens ainda pouco conhecidos, entre os quais o próprio governador Cláudio Castro.

Sua posição atual foi fruto de uma sequência de fatores pertencentes ao chamado imponderável. Eleito em 2016 para um primeiro mandato de vereador na Capital com 10.262 votos, em 2018 aceitou concorrer como vice-governador na chapa encabeçada por Witzel que à época não havia conseguido atrair outros partidos para se coligarem com o PSC. O que aconteceu depois já faz parte da história.

Durante os 8 meses em que exerceu o governo interinamente adotou um estilo cauteloso, reiterando sua condição de governador em exercício. Porém, a partir de 30 de abril, data em que Witzel foi afastado definitivamente, sentou-se na cadeira com força e muita vontade. E quis o destino que nesse mesmo dia fosse realizado o leilão da CEDAE que rendeu ao estado e aos municípios uma bolada superior a R$ 22 bilhões.

Com dinheiro em caixa, o governador e seus principais aliados entraram em campo já definindo o principal objetivo: viabilizar sua candidatura à reeleição. O primeiro movimento foi recompor o secretariado, atraindo deputados estaduais e federais de diferentes partidos que, diretamente ou por meio de indicados, passaram a exercer a titularidade em diversas secretarias.

O segundo movimento foi filiar-se ao PL em uma solenidade prestigiada pelo presidente da República, deixando claro que o bolsonarismo seria seu campo de atuação política. Tal movimento é estratégico porque no nosso estado as pesquisas indicam que o apoio ao presidente é superior à média nacional.

E o terceiro movimento foi a formalização de acordos e parcerias com prefeitos, tanto de municípios da região metropolitana quanto do interior, destacando-se a liberação do repasse de recursos decorrentes do leilão da CEDAE supracitado. São R$ 7,688 bilhões distribuídos proporcionalmente pelos 28 municípios que aderiram ao plano de concessão de saneamento, sendo que 80% do total será repassado ainda nos anos de 2021 e 2022 e o restante em 2025.

Para se ter uma noção do impacto para os municípios, vejamos o exemplo de São Francisco de Itabapoana, cujo orçamento anual em 2021 previa uma receita total de pouco mais de R$ 72 milhões e vai receber cerca de R$ 22 milhões ainda neste ano. É equivalente a 30% de acréscimo!

Lembrando que o governador já deixou claro não existir qualquer restrição para a utilização desses recursos. “Cada prefeito e estado gastam como quiserem. Não há destinação prevista, é um dinheiro livre”, declarou. Com base nessa premissa, para atender aos demais 63 municípios (excluída a Capital) o estado terá à disposição o montante de R$ 14,478 bilhões.

Está claro que a opção preferencial pela aliança com prefeitos e prefeitas traz a ele dois benefícios diretos com vistas às eleições. O primeiro é torná-lo, desde já, mais conhecido do eleitorado fluminense. E o segundo, permitir que sua futura campanha esteja presente nos municípios sob a responsabilidade direta das principais lideranças locais.

Enquanto o governador se movimenta com desenvoltura cada vez maior, os possíveis concorrentes ainda não se apresentaram para a disputa. A única exceção é o deputado federal Marcelo Freixo que recentemente migrou do PSOL para o PSB, sinalizando uma clara tentativa de se reposicionar politicamente de modo a romper o cerco eleitoral que o levou a derrotas em disputas anteriores para cargos no executivo. Porém, seu nome carrega uma forte rejeição em razão do histórico político, praticamente inviabilizando sua vitória.

Nesse cenário há um espaço aberto para a construção de uma candidatura alternativa capaz de furar o cerco e disputar em melhores condições com o atual governador. Quem se habilita?

Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia

Artigo publicado no portal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes em 17/07/2021 https://opinioes.folha1.com.br/2021/07/17/a-forca-dos-prefeitos-na-eleicao-a-governador-do-rio/

Leia também https://focanaestrategia.com/nem-um-nem-outro/

1 comentário
  1. Sr. Orlando Tomé come sempre, faz uma análise da conjuntura muito clara do cenário político do Estado do Rio de Janeiro é as próximas eleições. Obrigado por nos dar a oportunidade de beber nessa pia de conhecimento.

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