Em meio à pandemia que tem ceifado a vida de dezenas de milhares depessoas, o país está vivendo intensa discussão em torno das fake news. Inquérito no STF, CMPI no Congresso, parlamentares trocando acusações, enfim, o clima está quente. Sem dúvida, produzir e propagar fake news é ato criminoso que precisa ser combatido e punido.

Felizmente, a condenação de tal prática é apoiada pela ampla maioria da sociedade, mas em muitas ocasiões confunde-se o crime em si com o ambiente em que ele acontece. Por isso, é comum surgirem propostas de censura ou mesmo extinção das redes sociais. Como na piada, do tirar o sofá da sala.

O debate continuará nos próximos meses e permeará a disputa eleitoral nos municípios, cujo pleito deverá ser adiado para novembro. Afinal, desde a campanha presidencial de Barack Obama em 2008, a internet foi identificada como espaço privilegiado para a ação política organizada. As experiências do Brexit e da eleição de Trump em 2016, bem como a vitória de Bolsonaro em 2018, confirmaram isso. Porém, muita gente que atua no mundo da política ainda não entendeu o novo cenário.

O filme Bye Bye Brasil, uma das obras-primas de Cacá Diegues, apresenta as aventuras e desventuras de uma trupe de artistas que percorre de caminhão o interiorzão do país. Autointitulado Caravana Rolidei, o grupo é liderado por Lorde Cigano, papel vivido pelo genial José Wilker. No final da película, ele tem o seguinte diálogo com o personagem Ciço, interpretado por Fábio Jr.:

– Tu viu a novidade?, diz lorde Cigano apontando para o novo caminhão. – Bonita as luzes, responde Ciço, sendo retrucado por lorde Cigano:

– Não, rapaz, o ipicilone no fim. Eu encontrei um gringo em Belém que me explicou que Rolidey tem ipicilone. P*, como a gente era ignorante!

No diálogo, fica claro que o personagem aprendeu algo novo, mas ainda insuficiente quanto à correta grafia da palavra no idioma inglês. O paradoxo se aplica, similarmente, à forma como boa parte de agentes políticos enxerga a atuação na web em períodos de pré-campanha e campanha eleitoral. Conversando com quem pretende se candidatar este ano, ouço afirmações do tipo “já estou presente nas redes sociais, tenho site, página no Facebook, perfil no Instagram, conta no Twitter”. Como lorde Cigano, demonstram ter aprendido um pouco, mas ainda estão longe de saber como atuar de maneira a alcançar os melhores resultados nesse terreno.

Os grupos que interagem no espaço virtual são uma representação da sociedade contemporânea, em que as pessoas se mobilizam com base em suas crenças e emoções. A diferença é que as telas dos celulares ou dos computadores inibem o constrangimento, permitindo que sejam feitas afirmações sem compromisso com evidências. Bom exemplo é a ideia de que a Terra é plana apoiada por milhões de seguidores apesar de já ter sido amplamente comprovado, há séculos, que ela é redonda.

No livro Os engenheiros do caos, o autor Giuliano Da Empoli mostra como diversos estrategistas têm conseguido identificar aspectos relevantes para uma eficaz campanha utilizando as mídias sociais. No meu artigo publicado aqui em 6 de março, destaquei três aspectos que vale a pena relembrar: 1) os algoritmos baseiam-se na cultura do engajamento, tendo maior valor as publicações com maior número de curtidas e compartilhamentos, independentemente do conteúdo; 2) a comunicação que explora tanto as emoções negativas das pessoas e grupos quanto seu lado festivo e libertário; 3) com a ação em massa nas redes sociais, a política deixa de ser centrípeta para ser centrífuga, valorizando os extremos a partir da revolta e da frustração latentes nas sociedades.

É a época da “política quântica” em que afirmações ou verdades contraditórias coexistem sem que uma invada a outra. Substitui-se a racionalidade, o equilíbrio e a comprovação científica por uma realidade determinada exclusivamente a partir do ponto de vista de cada observador. Assim, cada indivíduo cria uma realidade para chamar de sua e passa a se relacionar intensamente com quem compartilha da mesma crença.

No lançamento da película em 1979, Cacá Diegues afirmou: “O filme é sobretudo sobre as coisas que estão nascendo e as coisas que estão acabando no Brasil”. Passados 41 anos, pego carona na frase para reiterar que o futuro chegou e veio para ficar. Não adianta brigar com ele, mas aprender as melhores formas de atuar politicamente nas redes, respeitando os limites éticos. Sem isso, o fracasso é certo.

Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia

Artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 12/06/2020

Leia também https://focanaestrategia.com/qual-o-futuro-politico-do-centro/

Ouça o #NoDetalhe https://focanaestrategia.com/nodetalhe-em-11-03-2020/

Acesse o site do jornal aqui https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/06/10/interna_politica,862885/fachin-vota-pela-legalidade-do-inquerito-das-fake-news-no-supremo.shtml

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