O OVO OU A GALINHA?

A educação básica em nosso país experimentou, nas últimas décadas, um crescimento no número de estudantes matriculados, mas essa evolução positiva não foi acompanhada da melhoria na qualidade do ensino. Os indicadores em testes nacionais e internacionais são muito ruins. Em se tratando de docentes da rede pública, especialistas na área destacam duas questões: baixa remuneração e qualificação inadequada.

Desde janeiro, o piso salarial nacional do magistério público da educação básica com jornada de 40 horas semanais é R$ 2.577,74. Com tal remuneração, que parcela da juventude quer cursar uma faculdade com o objetivo de seguir a carreira docente? Muito pouca gente! Basta verificar em nossos círculos de relacionamento quantas famílias desejam que seus filhos e filhas sejam docentes. É uma atividade profissional cada vez menos valorizada. E não me refiro apenas à postura de governantes, mas à consciência coletiva da sociedade brasileira.

A expectativa de remuneração é fator decisivo sobre que carreira seguir. Assim, para melhorar a percepção sobre a atividade docente é indispensável mudar significativamente o patamar de remuneração. Por quê? Ora, qualquer profissão que pague ótimos salários atrai estudantes com melhor desempenho. Como atualmente se paga mal, a maior parte das vagas acaba sendo ocupada por pessoas menos preparadas.

Aqui chegamos ao aspecto da qualificação inadequada da maioria do corpo docente. Em alguns casos, programas de formação para o magistério podem ajudar a melhorar o padrão, mas corremos o risco de alcançar apenas mudanças pontuais porque a base de docentes tem qualificação insuficiente. Por outro lado, se aumentar significativamente o valor do piso, o poder público estará obrigado, por isonomia, a pagar o mesmo valor para quem já está atuando, com reflexo nas aposentadorias. Qual a solução?

Criar a carreira nacional de docente da educação básica, com competências e atribuições que justifiquem uma remuneração atraente para novos talentos. E quem já está no magistério público só migraria para a nova carreira após aprovação em um processo público de seleção. Para darmos o salto que nosso país necessita e merece, é indispensável pararmos de nos conformar com o dilema do ovo e da galinha como justificativa para o imobilismo.

Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia

Artigo publicado no jornal O Dia em 25/06/2019

https://odia.ig.com.br/opiniao/2019/06/5656404-orlando-thome-cordeiro–o-ovo-ou-a-galinha.html

 

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