“Ele disse que era só uma gripezinha, mas quando começar a crescer o número de mortes pela pandemia ele vai perder popularidade.”

“Ele falou que não faria a política do “toma lá dá cá” e agora está casado com o Centrão. Vai perder apoio.”

“Bolsonaro foi o grande derrotado nas eleições de novembro.”

Durante o ano de 2020 proliferaram comentários e análises em que as afirmações acima estiveram presentes. Porém, em sentido contrário e para espanto geral, as últimas pesquisas de opinião indicam que a aprovação do presidente não apenas cresceu como atingiu seus melhores índices em quase dois anos de mandato.

Inconformados com a não confirmação de suas previsões, partem agora para uma nova aposta que pode ser sintetizada em duas frases: “quando acabar o auxílio emergencial ele vai perder apoio” e “ele vai perder a guerra das vacinas”. Tenho a impressão que, mais uma vez, não acertarão.

Mas, afinal, o que explica tamanha resiliência? Vale a pena fazermos um balanço do que marca o comportamento do presidente tanto na campanha de 2018 quanto durante seu mandato. A primeira característica é o jeito tosco, ora grosseiro, ora simplório, fora dos padrões esperados. Cito dois exemplos: o famoso café da manhã, em novembro de 2018, quando ofereceu Danoninho a John Bolton, então Conselheiro de Segurança dos EUA; e as lives semanais nas redes sociais em que fala, de maneira coloquial, com dezenas de milhares de pessoas sobre os mais diversos assuntos, enfatizando realizações ou posicionamentos políticos de seu governo.

A segunda característica é a reafirmação dos valores conservadores no campo dos costumes combinada com a defesa da liberdade individual acima dos interesses coletivos. Tal posicionamento pode ser sintetizado no ataque à obrigatoriedade do uso da vacina ou no direito da população se armar como forma de autodefesa.

Entretanto, a principal característica é a de adaptar a narrativa de acordo com o perfil do público com quem quer se comunicar. Isso fica evidente na forma como ele vem se relacionando, de um lado, com o STF e o Congresso Nacional, e, de outro, com sua base de apoio nas redes sociais.

No caso das instituições, adota o “morde e assopra”, negociando em busca das condições para viabilizar suas pautas, sendo notória sua articulação com os parlamentares do Centrão. Já com seus apoiadores a ideia tem sido reforçar as crenças e os valores que os unificam, tais como o ataque à política do “toma lá dá cá” e à corrupção dos governos anteriores.

Importante observar que a gritante contradição entre as duas narrativas não gera qualquer tipo de constrangimento para ele, pois, como já escrevi anteriormente, em tempos de política quântica a verdade de cada um prevalece sobre as evidências objetivas.

Junte-se a esses movimentos a capacidade de, reiteradamente, determinar a agenda do debate na mídia e nas redes. A cada dia, por meio de declarações e ações, ele coloca na ordem do dia o assunto que lhe interessa e, tal qual o flautista de Hamelin, leva todo mundo para o caminho que lhe interessa. Assim, de grão em grão, vai pavimentando o caminho para sua reeleição em 2022 como têm atestado as pesquisas.

Diante desse cenário, o que se vê é a oposição, em todos os seus espectros político-ideológicos, impotente e enredada na armadilha montada. Até mesmo nesse campo o presidente age estrategicamente em sintonia com seus objetivos, procurando escolher de antemão o adversário que lhe interessa, além de trabalhar para associar ao eventual competidor a imagem de volta a um passado recente rejeitado pela maioria do eleitorado.

Uma das razões para a inépcia da oposição, particularmente o autointitulado centro democrático, é não compreender que a única possibilidade de sucesso político e eleitoral está na radicalização em defesa de suas ideias e propostas.

Para se tornarem competitivos precisam aprender que nesse novo jogo a disputa acontece em outro terreno, com regras, linguagens e instrumentos próprios, muito diferentes da forma de atuação a que estão habituados. Em outras palavras, continuam usando luvas de pelica para travar uma luta de box. O nocaute é certo!

Nesse sentido, chamo a atenção para a novidade trazida por um conjunto de conhecidos influenciadores digitais que têm feito um forte contraponto ao presidente nas redes sociais. E com um diferencial: falam com um público majoritariamente jovem e avesso à política tradicional. Quem quiser fazer a diferença em 2022 deve prestar atenção e aprender com essa galera. Fica a dica!

Artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 18/12/2020. https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2020/12/4895618-nocaute.html

Leia também https://focanaestrategia.com/radicalizacao-ja/

 

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