Ilustração de Caio Gomez
Ilustração de Caio Gomez

Faltam 198 dias para as eleições de outubro e as pesquisas vêm mostrando uma liderança consistente do ex-presidente Lula com o presidente Bolsonaro em segundo lugar. Enquanto isso, as demais candidaturas não conseguem superar a barreira de um dígito, ainda que cerca de 25% de eleitores apontem não querer votar em nenhum dos dois atuais líderes.

Sem dúvida, é uma situação preocupante já que caminhamos para reproduzir o cenário de 2018. Naquela ocasião o voto majoritário foi determinado pelo desejo de retirar quem estava no poder. E agora a maioria deseja a volta do governante anterior para substituir o atual. Ou, seja, vivemos um momento que pode ser muito bem representado pelos versos do poeta Cazuza, em sua obra prima “O Tempo Não Para”: eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades.

É evidente que a hipótese de reeleição do atual presidente significa um risco muito grande tendo em vista seu desprezo militante pelas instituições e ritos que são pilares da democracia liberal. Os ataques e ameaças são marcas constantes de seu mandato. Portanto, não pode haver dúvida quanto à necessidade de derrota-lo nas urnas em outubro.

Movidos por essa preocupação, diversas lideranças democráticas de partidos de oposição e da sociedade civil resolveram aderir, sem qualquer contrapartida, à pré-candidatura de Lula, enxergando-a como a única saída possível. Trata-se de um movimento legítimo, mas precipitado e equivocado. Senão vejamos.

Desde que o STF e outras instâncias judiciais anularam as condenações, o ex-presidente vem fazendo declarações dando a entender que, em caso de vitória, seu novo mandato seria um revival dos mandatos anteriores, o que, convenhamos, tem forte apelo emocional.

Mesmo o convite para o ex-governador e ex-tucano Geraldo Alckmin ser seu vice não tem significado uma sinalização diferente, pois tem como foco apenas a aliança eleitoral em busca dos votos em SP.

De outro lado, numa tentativa de apagar a história conhecida por toda a população, cria um sofisma ao querer confundir, propositadamente, anulação de condenações por questões processuais com um atestado de inocência. Como assim?

E os 6 anos de governo Dilma? Nada a declarar. Como se ele e seu partido não tivessem qualquer responsabilidade pelo desastre econômico deixado como herança. E ainda tentam esconde-la, tratando-a de maneira desrespeitosa, como uma sujeira a ser varrida para debaixo do tapete.

Para completar, soma-se à conhecida conivência com regimes autoritários ditos de esquerda o comportamento absurdo de não condenar a Rússia pela invasão criminosa da Ucrânia, escudando-se em um sentimento antiamericano, típico dos anos 1960, tempos de guerra fria. O exemplo mais recente é o um artigo assinado por José Dirceu de onde transcrevo a seguinte pérola: “Os EUA não são mais uma república democrática, para usar o conceito liberal, mas sim um império e uma plutocracia, com apoio do dólar, das Forças Armadas, único país com bases e força militar estratégica em todo o mundo”. Só ingênuos poderiam acreditar que Dirceu não fala em nome do PT.

Porém, nada disso impediu a continuidade de seu movimento em busca de adesões acríticas, com base na narrativa “confie em mim porque sei como fazer”. Ao lado disso, predominou a ideia de que seria imprescindível garantir sua vitória, liquidando a fatura no primeiro turno, como única maneira de impedir qualquer eventual tentativa golpista de Bolsonaro e seus apoiadores, tendo como paradigma a invasão do Capitólio promovida por Trump em 6 de janeiro do ano passado.

Tudo parecia caminhar bem nessa estratégia, graças, principalmente, à combinação da alta rejeição do presidente com a já citada incapacidade da chamada terceira via de empolgar o eleitorado. Entretanto, as primeiras pesquisas de 2022 trouxeram um fato novo: o início de recuperação dos percentuais de apoio a Bolsonaro e da consequente queda em sua rejeição, indicando que não haverá possibilidade de se encerrar a disputa no primeiro turno.

Caso essa tendência se mantenha, poderemos nos deparar com uma situação até aqui considerada improvável: o sentimento antiPT, ainda muito presente na sociedade, superar o antibolsonarismo, levando à reeleição do presidente no segundo turno contra Lula.

Assim, cabe às forças democráticas continuar sua luta para construção de uma candidatura de oposição alternativa, capaz de empolgar o eleitorado de modo a se tornar viável eleitoralmente. Do contrário, corremos sério risco de ver o futuro repetir o passado.

Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia    

Coluna publicada no jornal Correio Braziliense edição de 188/03/2022 https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2022/03/4993952-artigo-futuro-pode-repetir-o-passado.html

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