Aprendendo a jogar
Crédito: Maurenilson Freire

Vivendo e aprendendo a jogar

Vivendo e aprendendo a jogar

Nem sempre ganhando

Nem sempre perdendo

Mas aprendendo a jogar

Esses são os primeiros versos de “Aprendendo a jogar”, música especialmente criada por Guilherme Arantes para Elis Regina em 1980 e que se tornou um sucesso na voz dessa cantora excepcional.

Recorro a essa obra para falar de um fato que mexeu fortemente com o mundo político: o evento de filiação de Sergio Moro ao Podemos na semana passada, que acabou se transformando num ato de lançamento de sua pré-candidatura à Presidência.

Ao contrário do que se esperava, em seu discurso não se limitou a falar do combate à corrupção. Tratou com propriedade de questões econômicas, sociais, ambientais e de gestão pública. Enfatizou a necessidade de erradicação da pobreza, defendendo a combinação de programas de transferência de renda com acesso à educação e oportunidades de trabalho, e propondo a criação de uma força tarefa a ser formada por servidores e especialistas.

Também fez a firme defesa da liberdade de imprensa e acenou para os militares com a valorização das Forças Armadas como instituição de Estado. Assumiu o compromisso com o fim da reeleição e do foro privilegiado. E quando falou de corrupção, indiscutivelmente seu melhor figurino, procurou mostrar ser diferente de Bolsonaro e Lula, com o bordão “chega de mensalão, chega de petróleo, chega de rachadinha”. Enfim, procurou se apresentar como alguém em condições para dirigir o país.

Como apontei em colunas anteriores, Moro sempre demonstrou potencial para ser um candidato competitivo, entre outras razões, pelo apelo que a luta contra a corrupção tem junto à parcela significativa do eleitorado. Afinal, não há outra razão para explicar que, mesmo após os constantes bombardeios oriundos da Vaza Jato e da suspeição declarada pelo STF, seu nome continuasse a mostrar uma grande resiliência em praticamente todas as pesquisas sobre eleições em 2022.

Respeitáveis analistas vinham divergindo dessa avalição, duvidando inclusive que ele se lançasse na disputa. Agora, mesmo reconhecendo o impacto do discurso do dia 10, apostam que servirá apenas para atrapalhar as demais pré-candidaturas da chamada terceira via. Não me parece ser essa a maior possibilidade.

O ex-juiz vem aumentando sua exposição pública, por meio de entrevistas para TV, rádio e jornais, reuniões com lideranças políticas e empresariais, além de incrementar sua presença nas redes sociais que já apresentam um crescimento relevante nas interações positivas.

Com isso, ouso afirmar que nas próximas pesquisas a tendência é ele alcançar dois dígitos e se isolar no terceiro lugar, descolando-se de Ciro Gomes e ficando ainda mais distante do candidato escolhido nas prévias do PSDB.

Se ele conseguir se consolidar nessa posição nos próximos meses e, simultaneamente, Bolsonaro continuar a demonstrar uma maior fragilidade eleitoral, poderemos assistir um movimento de migração de parte expressiva de atuais apoiadores de Bolsonaro em sua direção. Refiro-me àquela parcela que vem declarando intenção de voto no presidente, ainda que esteja descontente com seu governo. Para esse grupo, caso não identifiquem uma opção melhor no campo conservador, é preferível reelege-lo a ver Lula novamente no Planalto. Portanto, não deve causar estranheza as iniciativas que ele já vem tomando no sentido de trazer ex-apoiadores do presidente para seu lado.

Por outro lado, o ódio que os bolsonaristas radicais e os petistas têm do ex-ministro pode ajuda-lo na tentativa de se cacifar como o único pré-candidato capaz de representar genuinamente os 40% conhecidos como “nem nem”. Ou seja, quanto mais ele se tornar alvo de ataques constantes de Bolsonaro e Lula, mais aumentam suas chances de crescimento.

Caso esse cenário se confirme, há uma enorme probabilidade de vermos dois movimentos: o primeiro, por volta de maio de 2022, seria a desistência de algumas pré-candidaturas da terceira via para se juntarem a Moro; e o segundo, mais próximo do primeiro turno, em que lideranças políticas de perfil conservador poderiam abandonar as candidaturas de seus respectivos partidos e migrar, por gravidade, para apoiar o ex-juiz. Afinal, a expectativa de poder exerce uma força de atração quase irresistível.

Por fim, é indiscutível que seus passos recentes, buscando o apoio de especialistas em diversas áreas, incluindo os serviços de fonoaudiologia, mostram que ele sabe a importância de viver e aprender a jogar. Vai vendo…

Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia   

Coluna publicada no jornal Correio Braziliense edição de 19/11/2021 https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2021/11/4964181-aprendendo-a-jogar.html

Leia também https://focanaestrategia.com/a-hora-e-a-vez-do-conservadorismo/

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